Quando se cobrar ajuda — e quando só torna o erro mais difícil?
Reconhecer um erro pode orientar mudança. Transformar cada erro em uma avaliação sobre quem você é produz outra coisa.
09 de abril de 2026 · por Flavio Castelhani
Você esquece algo importante.
A primeira frase aparece quase imediatamente:
"Como eu consigo ser tão irresponsável?"
Erra no trabalho:
"Eu deveria saber fazer isso."
Uma conversa não acontece como gostaria:
"Eu sempre estrago tudo."
Em poucos segundos, algo que começou como avaliação de uma ação se transforma em uma conclusão muito maior sobre você.
E talvez isso pareça útil.
Afinal, se você se cobrar o suficiente, não cometerá o mesmo erro novamente.
Será?
O que acontece depois que você se critica?
Essa é uma pergunta mais interessante do que simplesmente decidir se autocrítica é boa ou ruim.
Depois de pensar:
"Eu deveria ter feito melhor",
o que acontece?
Você identifica algo específico que precisa corrigir?
Planeja outra maneira de agir?
Ou passa horas reconstruindo mentalmente aquilo que aconteceu?
Tenta novamente?
Ou começa a evitar situações em que poderia cometer o mesmo erro?
Uma cobrança pode orientar ação.
Outra pode aumentar vergonha, evitação ou ruminação sem produzir qualquer correção relevante.
O conteúdo pode parecer parecido.
A função não necessariamente é.
Uma cobrança não se torna mais útil apenas porque é mais dura. Precisamos observar aquilo que ela ajuda — ou impede — você a fazer.
"Mas se eu parar de me cobrar, vou me acomodar"
Esse receio faz sentido dentro de uma lógica bastante comum:
cobrança produz desempenho.
E, em algumas situações, critérios, avaliação e consequências realmente ajudam a orientar comportamento.
Mas existe uma diferença entre:
"Esse trabalho ficou abaixo do que eu precisava. O que preciso corrigir?"
e:
"Eu sou incompetente."
A primeira formulação mantém alguma informação sobre o comportamento e sobre aquilo que pode ser modificado.
A segunda transforma um acontecimento em uma conclusão global sobre a pessoa.
Mais punição não significa automaticamente mais aprendizagem.
A alternativa não é pensamento positivo
Não precisamos trocar:
"Eu sou péssimo nisso"
por:
"Eu sou incrível nisso."
Se houve um erro, podemos olhar para ele.
Se houve uma consequência, podemos assumir responsabilidade.
Se algo precisa mudar, podemos trabalhar nisso.
Na psicoterapia, interessa compreender como determinados padrões de autocobrança foram construídos, quando aparecem e, principalmente, o que produzem atualmente.
Porque aprender com um erro exige reconhecer que ele aconteceu.
Não exige transformar cada falha em uma sentença sobre quem você é.
Psicoterapia
Se você reconhece alguns desses padrões na sua própria vida, a psicoterapia pode ser um espaço para compreendê-los considerando sua história e as situações em que acontecem.
Entender como funciona a psicoterapiaReferências
- Löw, C. A., Schauenburg, H., & Dinger, U. (2020). Self-criticism and psychotherapy outcome: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 75, 101808.
- Milia, C., Kolubinski, D. C., & Spada, M. M. (2021). The effects of self-critical rumination on shame and stress: An experimental study. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 49(3), 272–286.