Por que entender a ansiedade nem sempre é suficiente para mudar?
Você pode reconhecer que está antecipando problemas, perceber o que evita e ainda encontrar dificuldade para agir de outra maneira.
17 de junho de 2026 · por Flavio Castelhani
Você recebe uma mensagem importante.
Lê uma vez. Depois outra.
Pensa no que a pessoa quis dizer. Formula uma resposta, apaga, escreve novamente. Talvez seja melhor esperar um pouco.
Enquanto isso, tenta descobrir qual seria a resposta certa — aquela que evitaria um mal-entendido, uma crítica ou uma consequência que você ainda nem sabe se vai acontecer.
Depois de algum tempo, toma uma decisão.
A ansiedade diminui.
Até aparecer outra dúvida.
O problema não é simplesmente "pensar demais"
Quando falamos de ansiedade, é fácil concentrar toda a atenção no desconforto: preocupação, tensão, pensamentos repetitivos, sensação de que alguma coisa pode dar errado.
Mas há outra pergunta importante:
O que você faz quando tudo isso aparece?
Algumas pessoas evitam. Outras adiam. Algumas procuram garantias, conferem repetidamente ou tentam antecipar todas as possibilidades antes de tomar uma decisão.
Essas respostas não surgem por acaso.
Muitas delas produzem alguma coisa importante no momento em que acontecem: alívio.
Você cancela e fica mais tranquilo.
Confere e a dúvida diminui.
Adia e deixa de enfrentar aquela situação agora.
É justamente por funcionar no curto prazo que uma resposta pode se tornar difícil de abandonar.
Às vezes, aquilo que fazemos para diminuir a ansiedade agora ajuda a entender por que o mesmo problema volta depois.
Então evitar é sempre o problema?
Não.
Evitar uma situação pode ser perfeitamente razoável. Conferir uma informação pode ser necessário. Planejar pode evitar problemas reais.
A questão não é decidir previamente que determinado comportamento é "ansioso" ou inadequado.
É observar quando ele acontece, o que produz e o espaço que começa a ocupar na vida daquela pessoa.
Se você precisa ter certeza antes de decidir, talvez passe cada vez mais tempo procurando certeza.
Se precisa esperar a ansiedade diminuir antes de agir, algumas situações importantes podem ser continuamente adiadas.
Se evita tudo aquilo que produz desconforto, seu mundo pode começar a ficar menor.
É o padrão, e não um comportamento isolado, que precisamos compreender.
O que isso muda na psicoterapia?
Meu trabalho não é simplesmente ensinar técnicas para eliminar a ansiedade.
Na psicoterapia, investigamos como ela aparece na sua vida: em quais situações, como você costuma responder e o que acontece depois.
A partir disso, podemos construir outras maneiras de lidar com situações que hoje parecem exigir controle, certeza ou evitação.
A mudança não depende necessariamente de deixar de sentir ansiedade.
Pode começar quando sentir ansiedade já não determina sozinho aquilo que você consegue ou não fazer.
Psicoterapia
Se você reconhece alguns desses padrões na sua própria vida, a psicoterapia pode ser um espaço para compreendê-los considerando sua história e as situações em que acontecem.
Entender como funciona a psicoterapiaReferências
- Dymond, S., & Roche, B. (2009). A contemporary behavior analysis of anxiety and avoidance. The Behavior Analyst, 32(1), 7–27.
- Pittig, A., Treanor, M., LeBeau, R. T., & Craske, M. G. (2018). The role of associative fear and avoidance learning in anxiety disorders: Gaps and directions for future research. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 88, 117–140.