Entender por que você faz algo é suficiente para conseguir mudar?
Reconhecer um padrão pode ser importante. Mas existe uma diferença entre saber explicar o que acontece e conseguir agir de outra maneira.
07 de maio de 2026 · por Flavio Castelhani
Há uma experiência relativamente frustrante em psicoterapia e fora dela:
"Eu já sei disso."
Você sabe que evita conflitos.
Sabe que procura aprovação.
Percebe que adia algumas tarefas quando existe possibilidade de avaliação.
Talvez consiga até reconstruir parte da história de como aprendeu a agir dessa maneira.
E, mesmo assim, quando uma situação parecida aparece novamente, o comportamento se repette.
Isso significa que o autoconhecimento não serve?
Não.
Significa que talvez estejamos esperando dele algo que ele sozinho não consegue fazer.
Compreender pode mudar muita coisa
Perceber um padrão permite identificá-lo enquanto acontece.
Uma explicação pode ajudar a reconhecer situações que antes pareciam desconectadas.
Você pode perceber:
"Eu faço isso principalmente quando existe possibilidade de desapontar alguém."
Essa compreensão já é diferente de simplesmente concluir:
"Eu sou assim."
Ela permite observar condições mais específicas e, potencialmente, encontrar outros pontos de intervenção.
O problema aparece quando compreender vira sinônimo de mudar.
Saber que você costuma ceder não é o mesmo que conseguir dizer "não"
Você pode compreender perfeitamente por que costuma evitar conflitos.
Mas, na próxima vez em que precisar contrariar alguém importante, haverá uma situação concreta diante de você.
Talvez apareçam ansiedade, culpa, pensamentos sobre a reação do outro ou vontade de voltar atrás.
Agora não estamos apenas falando sobre o comportamento.
Estamos diante das condições em que ele costuma acontecer.
E fazer algo diferente pode exigir repertórios que nenhuma explicação, por mais sofisticada que seja, substitui.
Uma explicação sobre nós mesmos se torna especialmente útil quando amplia aquilo que conseguimos perceber e fazer.
Pensar também pode ter funções diferentes
Refletir sobre um problema pode ajudar.
Pode organizar experiências, permitir planejamento e produzir novas perguntas.
Mas também é possível passar muito tempo procurando uma explicação perfeita enquanto decisões importantes continuam sendo adiadas.
Por isso, nem mesmo "pensar demais" deve receber uma função automática.
A pergunta continua sendo:
o que acontece quando você faz isso?
Na psicoterapia, compreensão e mudança não precisam competir
Não precisamos escolher entre "entender" e "agir".
As duas coisas podem se alimentar.
Às vezes compreendemos melhor porque experimentamos uma resposta diferente e observamos o que acontece.
Em outras situações, uma nova compreensão permite tentar algo que antes não parecia possível.
O objetivo não precisa ser construir uma narrativa definitiva sobre quem você é.
Pode ser chegar a uma compreensão suficientemente boa para aumentar suas possibilidades diante das situações que hoje parecem terminar sempre da mesma maneira.
Psicoterapia
Se você reconhece alguns desses padrões na sua própria vida, a psicoterapia pode ser um espaço para compreendê-los considerando sua história e as situações em que acontecem.
Entender como funciona a psicoterapiaReferências
- Webb, T. L., & Sheeran, P. (2006). Does changing behavioral intentions engender behavior change? A meta-analysis of the experimental evidence. Psychological Bulletin, 132(2), 249–268.
- Harkin, B., Webb, T. L., Chang, B. P. I., Prestwich, A., Conner, M., Kellar, I., Benn, Y., & Sheeran, P. (2016). Does monitoring goal progress promote goal attainment? A meta-analysis of the experimental evidence. Psychological Bulletin, 142(2), 198–229.