O que perfeccionismo e procrastinação podem ter em comum?
Querer fazer algo bem não é um problema. A dificuldade começa quando as condições para começar ou terminar se tornam cada vez mais difíceis de alcançar.
23 de abril de 2026 · por Flavio Castelhani
Você abre o arquivo.
Escreve o primeiro parágrafo.
Relê.
Muda uma frase.
Volta para a anterior.
Talvez ainda falte informação.
Pesquisa mais um pouco.
Agora já está cansado e provavelmente faria melhor amanhã.
Fecha o arquivo.
No dia seguinte, ele continua esperando.
De fora, isso pode parecer simplesmente procrastinação.
Por dentro, a experiência pode ser bastante diferente:
"Eu só quero fazer direito."
Perfeccionismo e procrastinação não são a mesma coisa
Essa distinção é importante.
Ter padrões elevados, revisar um trabalho ou buscar excelência não significa necessariamente procrastinar.
O problema pode aparecer quando os critérios para considerar alguma coisa aceitável se tornam tão rígidos que começar, concluir ou expor o resultado passa a ser cada vez mais difícil.
Nesse ponto, melhorar e adiar podem começar a parecer a mesma coisa.
Enquanto não terminou, ainda não pode ser avaliado
Imagine um trabalho importante.
Enquanto você continua revisando, ele ainda pode melhorar.
Mas existe outra consequência:
ele também ainda não pode ser avaliado.
Entregar significa entrar em contato com possibilidades que talvez sejam desconfortáveis.
Alguém pode discordar.
Pode encontrar um erro.
O resultado pode ficar abaixo daquilo que você imaginava.
Em algumas situações, continuar preparando, pesquisando ou revisando também adia esse contato.
Isso pode ajudar a compreender determinados casos de procrastinação.
Mas não todos.
Procrastinação pode acontecer por diferentes razões, assim como padrões elevados de exigência podem produzir efeitos diferentes em pessoas e situações distintas.
Às vezes, o problema não é querer fazer algo bem. É quando fazer bem se transforma numa condição para conseguir fazer.
Quando "bom o suficiente" nunca chega
A consequência pode aparecer em lugares muito diferentes.
Um projeto que nunca é lançado.
Uma mensagem que precisa ser revisada várias vezes.
Uma decisão que espera pela certeza.
Uma oportunidade para a qual você ainda não se sente preparado.
Cada episódio pode parecer pequeno.
O padrão acumulado pode restringir bastante aquilo que a pessoa consegue colocar no mundo.
Na psicoterapia, interessa compreender em quais situações isso acontece, o que torna concluir difícil e o que acontece quando a tarefa é adiada ou mantida indefinidamente em preparação.
O objetivo não é trocar excelência por descuido.
É desenvolver critérios mais flexíveis para decidir quando melhorar realmente importa e quando terminar também faz parte de fazer bem.
Psicoterapia
Se você reconhece alguns desses padrões na sua própria vida, a psicoterapia pode ser um espaço para compreendê-los considerando sua história e as situações em que acontecem.
Entender como funciona a psicoterapiaReferências
- Sirois, F. M., Molnar, D. S., & Hirsch, J. K. (2017). A meta-analytic and conceptual update on the associations between procrastination and multidimensional perfectionism. European Journal of Personality, 31(2), 137–159.
- Steel, P. (2007). The nature of procrastination: A meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure. Psychological Bulletin, 133(1), 65–94.